A “Utopia Distópica” de Aldous Huxley

Apesar de gostar de ficção científica, e até já ter ensaiado escritos neste sentido (veja aqui uma breve estória que se passa no futuro próximo, daqui a 60 anos), ainda não tinha lido os clássicos da literatura. Nestas últimas semanas li o Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley (1932). Meu comentário geral: a qualidade da trama do romance acompanha sua fama.

Capa do livro Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley (1932).

A estória se passa em 632 d.F. (depois de Ford!) em Nova Londres, e narra um cenário de prosperidade científica em favor da estabilidade social, da padronização da forma física e do comportamento, da dissolução de valores considerados fundamentais (como família e afeto), e da consciência de classe em forma de aceitação. O conflito do romance aparece com os questionamentos de John, o Selvagem, que, ao mesmo que tempo que é objeto de investigação científica, duvida da salubridade do modo de vida “civilizado”, fazendo frequentes referências a trechos de obras de Shakespeare sobre as tragédias humanas, sobre a necessidade delas, como contraponto à felicidade e estabilidade perenes.

É natural que qualquer tentativa de descrever o futuro dê destaque aos potenciais avanços tecnológicos e científicos, pois estes moldam nossas vidas de um jeito cada vez mais intrusivo, como sabemos. Muito tempo se passou desde década de 1930, e o futuro descrito no livro, uma realidade projetada para daqui a 600 anos, provavelmente decepcionará o leitor ávido pela superficialidade da mera presença de tecnologias disruptivas na vida prática.

Com uma abordagem mais fundamental e profunda, Admirável Mundo Novo não é sobre ciência e tecnologia, mas sobre como este poder é usado para nos redefinir como seres humanos, nos induzindo a pensar sobre o que queremos nos tornar (se é que podemos escolher) a partir de nossa perspectiva atual. O livro traz, sobretudo, a reflexão sobre o que nos define como seres humanos, física, psicológica e socialmente.

O próprio Huxley escreveu em 1946 um excelente prefácio para o livro, distribuído na versão atual, explicando o motivo pelo qual o manteve na versão original, apesar das falhas que ele identifica, e, hipoteticamente, o que teria feito diferente. O prefácio, sem sombra de dúvidas, vale ser relido após o final do livro.

Lendo o livro, não podemos deixar de pensar na atualidade. Vivemos um momento de muita velocidade na ocorrência e comunicação de fatos relevantes no mundo. Subitamente, dentro de um século, quase tudo ficou interligado e relevante! A História está cada vez mais densa no tempo. Neste momento, por exemplo, vivemos uma revolução da automação por meio de inteligência artificial, seus impactos no trabalho humano, ao mesmo tempo em que temos que lidar com uma pandemia e, portanto, com uma crise de saúde que nos mata e que, quando vencermos a guerra contra o vírus, já terá deixado um rastro de destruição que nos conduzirá a um colapso econômico sem precendentes.

Devemos unir à esta sopa de globalização e disrupção tecnológica a emergência de Governos autoritários, no Brasil e no mundo, que ameaçam a liberdade civil e a democracia, com formas sutis (e nem sempre tão sutis) de totalitarismo. Fazendo isso, como que por encanto macabro abre-se a possibilidade, felizmente ainda remota, do futuro retratado de maneira simplista em Admirável Mundo Novo.

Eu direi que, apesar de quase um século de vida, a reflexão fundamental da obra se mantém extremamente atual, portanto necessária.

No mundo do audio-visual, já está com data de lançamento marcada (15/07/2020) a primeira temporada da série “Brave New World” (Admirável Mundo Novo) produzida pela americana NBC. Confira o trailer:

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