E se dinheiro tivesse prazo de validade?

Estou lendo o excelente livro Sapiens de Yuval Noah Harari, e estou justamente no capítulo que fala sobre o dinheiro. Um dos pontos fundamentais desta tecnologia distribuída de gestão de recursos, como todos sabemos, é justamente a não necessidade de manter várias taxas de câmbio entre todas as variedades de produtos e serviços em uma sociedade, além da possibilidade de acúmulo de créditos no sistema financeiro. Em outras palavras, se você é um açougueiro, não conseguirá acumular carne indefinidamente para trocar, digamos, por um serviço médico; ou se é um médico, não verá sentido em acumular sua capacidade de cuidar de pessoas doentes para trocar por carne bovina. Mas quando carne e serviços médicos são trocados por dinheiro, todos estes créditos podem ser acumulados. Genial.

O dinheiro é genial, claro. Porém, quase todas as críticas ao sistema de organização capitalista estão baseadas na concentração de riqueza e, consequentemente, poder. A possibilidade de acúmulo indefinido, inclusive com natural transferência por herança, descolada da realidade temporal dos recursos naturais e serviços humanos, cria uma condição artificial de desequilíbrio da natural função de distribuição de recursos e valor do trabalho. É fácil entender. A carne vendida pelo açougueiro tem prazo de validade para ser consumida, mas o dinheiro que o açougueiro recebe, não: pode ser utilizado daqui a 100 anos pelos seus bisnetos, sem nenhuma conexão temporal com a carne vendida há 100 anos atrás.

Se todo recurso ou trabalho tem intrínseco valor temporal, teria também seu representante universal, o dinheiro?

No comunismo, utópico, não há a propriedade privada. Ele nos remete à questão: seria natural que a capacidade de uma pessoa de gerar valor para a sociedade estivesse desvinculada de seu poder de se apropriar de recursos? O açougueiro lá em cima quer vender carne para comprar arroz. Ele se apropria de arroz na medida em que gera valor social vendendo carne. Ele também pode querer se apropriar de uma casa para morar com sua família. Vamos mudar a época de análise. Uma família humana há 10 mil anos só comeria frutas se investisse um tempo razoável do dia coletando em ambientes hostis, vencendo inimigos naturais que concorriam pelos mesmos recursos. Existe uma proporção natural entre trabalho e propriedade no mundo humano.

Vamos resumir os pontos. O dinheiro é uma invenção espetacular que abstrai a troca de mercadorias e serviços. Se, por um lado, abolir a propriedade privada quebra a proporção entre trabalho realizado e a apropriação dos recursos, por outro lado, o acúmulo de potencial apropriação na forma de dinheiro quebra o valor temporal de recursos naturais gerando desigualdade social profunda.

O meio termo seria uma boa solução? “Solução”, neste caso, não é algo que se inventa por alguém e se aplica, pois isso não é possível para uma sociedade culturalmente complexa, mas a convergência natural do nosso processo civilizatório. “Meio termo” seria um sistema financeiro capitalista onde o dinheiro teria prazo de validade.

Imagine: você, empresa ou pessoa física, recebendo dinheiro agora por um serviço ou produto, tendo no máximo 1 ano (pode imaginar outro prazo, se quiser) para trocar esse dinheiro por outros produtos ou serviços. Claro, o sistema tem brechas. Não vale comprar outros dinheiros. Tem também o mercado de ações, mas este funcionaria de outra forma, já que neste sistema o acúmulo é inibido (a S.A. não acumularia riqueza, também, para além de 1 ano) e a remuneração seria proporcional ao esforço.

Faça o exercício. Você pode comprar uma casa, se quiser, e mantê-la pelo tempo que desejar, pois ela não é dinheiro. Ela pode inclusive ficar de herança. Bem, você conseguiria comprar uma casa em 1 ano? Não sei, mas certamente a circulação de dinheiro na sociedade seria muito maior, com menor concentração. Também poderia surgir a partir de um acordo sobre habitação, propriedade de todos que aderirem, talvez.

A grande questão que vejo, e o nosso triunfo, seria: se o acúmulo é inibido e a apropriação é proporcional ao esforço, como realizaríamos as grandes conquistas, digamos, mandar o primeiro homem à Marte? Não vejo outra resposta que não seja esta: cooperar.

Em tempo, recomendo fortemente a leitura de Sapiens, de Harari.

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