Reflexões sobre riqueza, desigualdade e trabalho

Eu sou anarquista. Como tal, tenho profunda descrença na eficácia a longo prazo das estruturas hierárquicas de poder. Não me entenda mal, este não é um pensamento ingênuo. O poder hierárquico tem sido muito útil em seu tempo, o atual: geram linhas estruturadoras que dão certa estabilidade a uma sociedade ainda muito desigual em termos de oportunidades de desenvolvimento e conhecimento. A assimetria educacional/cultural, apesar de nossas poderosas infraestruturas de comunicação em rede, gera uma assimetria ainda maior de oportunidades. A hierarquia de poder é cruel e injusta, põe cada qual em seu lugar e define o quanto de luz cada um pode receber, mas de certa forma tem estruturado os povos.

Eu falei em uma “certa estabilidade”. A história do mundo humano nos mostra como estruturas centralizadas e hierarquizadas de poder, o modelo ainda dominante, invariavelmente são destruídas pelas forças de reação. O ônus é quase sempre a guerra, que implica em mortes e traumas sociais. Os caminhos do poder no mundo ao longo da história seguem sempre o rastro do “ouro”. Não tendo resolvido o problema da distribuição de recursos, estamos sempre sujeitos aos movimentos traumáticos de dominação entre os povos. Trata-se sempre da concentração de riqueza.

Se você não for um sociopata, provavelmente também terá propensões libertárias. Comunistas e capitalistas de boa-fé pensam em liberdade e igualdade, sob parâmetros diferentes. O pensamento capitalista é um excelente exemplo. Entendido como um sistema idealmente auto-regulado, o “mercado” é este campo de demonstração do valor das produções humanas que são recompensadas de acordo com o mérito. Suas falhas residem nas mesmas consequências que motivaram sua existência, que são a concentração de riqueza e a exploração do trabalho.

Hoje o Brasil discute suas posições ideológicas e políticas. As últimas eleições brasileiras empoderaram nos mais altos cargos do Poder Executivo e Legislativo, federais e estaduais, representantes da direita extrema, com forte viés autoritário justificado pela necessidade de “moralizar” o Estado. É um pêndulo de alternância de representações, de caráter local, mas sincronizado internacionalmente. Não nos enganemos: em qualquer caso, os modelos de representação indireta criam um ambiente favorável à concentração de poder e, do ponto de vista da falta de robustez do processo político, corrupção.

Obviamente, a discussão sobre riqueza e desigualdade é muito maior do que colocar um boné “vermelho” ou “azul”. Não estou em cima do muro: como trabalhador, sei de que lado estou. Quero dizer que se trata de uma discussão profunda e global, que passa notadamente por uma reinterpretação do trabalho. O trabalho há de ser repensado não na forma de novas modalidades com papel marginal na produção de riqueza, mas sim gradativamente assumindo seu papel central. Também quero dizer que não há espaço para propostas revolucionárias que em um só movimento reposicione o trabalhador: o Estado, qualquer lugar que seu Governo esteja no espectro ideológico, não fará esse movimento.

Hoje, o trabalhador é uma máquina de produção de bens e serviços, “recurso humano” que faz parte do fluxo de produção das empresas. Mas todos sabemos que ele mais do que isso. Dotados de cérebros, essas preciosas máquinas dentro da suas cabeças, os trabalhadores são a própria empresa. O que os põe em posição marginal de decisão é a força do capital que alguns poucos detêm, que financia os meios de produção. Dito desta forma, quero fugir do vitimismo, especialmente porque o sonho do trabalhador bem sucedido normalmente é se reposicionar como empresário, quase um título de nobreza dos tempos atuais.

O principal movimento dos trabalhadores não deveria ser através do processo eleitoral. Para além de selecionar seus representantes, o que é muito importante, os trabalhadores deveríamos fazer o esforço de nos reposicionar nas cadeias produtivas. Acredito em cooperativas de trabalho, inclusive para as atividades intelectuais. Ironicamente, como seres pensantes e capazes de organizar a “coisa alheia”, não somos capazes de nos organizar para redefinir nossos papéis. O técnico, protagonista de fato, é coadjuvante nas aparências e matérias jornalísticas. O que nos falta?

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s