Pernambuco deveria valorizar Pernambuco

Longe da terra natal por um bom tempo acabamos criando uma certa consciência, diferente, penso que maior, sobre suas riquezas. É como se tivéssemos a oportunidade de sair do “fluxo” para olhar com mais exatidão sua posição no mundo, além das posições que poderia estar ocupando e não ocupa, em muitas dimensões. Mas essa clareza tem um ônus, que é uma dose exagerada de saudade.

É no período de carnaval que a cultura pernambucana se expressa com muito mais força, apesar de todas as dificuldades. O carnaval, que o pernambucano “médio” associa ao período de extravagâncias, seja para extravasar energia ou para vadiar, organiza na verdade uma agenda cultural que reúne os principais movimentos que marcam a identidade de nosso povo e sua diversidade. Do litoral ao sertão, há expressões populares que, de certa forma, dizem quem somos, de onde viemos e para onde podemos ir.

Esses dias vi o interessante documentário abaixo, transmitido pela Globo Nordeste em 2014, chamado “Sete Corações”. Trata-se de um movimento de auto-conhecimento, enquanto grupo, liderado pelo maestro Spok, que reúne 7 dos maiores mestres de frevo vivos de Pernambuco. Além do importante estudo e documentação, Spok realiza talvez o maior feito em mais de um século de frevo, que foi uma composição conjunta dos sete mestres, um frevo que deu nome ao documentário, “Sete Corações”. Uma coisa excepcional.

O que me deixa impressionado, contudo, são as condições difíceis com que trabalham estes mestres, que ajudaram e ajudam Pernambuco a formar sua identidade. Fico me perguntando qual o custo real para o Governo de Pernambuco, ou mesmo para a Prefeitura do Recife, dar um bom plano de saúde e, por que não, uma bolsa cultural para estes expoentes de notório saber viverem melhor e continuarem fortalecendo a cultura do nosso estado.

Não basta que esses cidadãos expressivos sejam lembrados apenas no carnaval. O frevo, assim como todos os movimentos e agremiações de maracatu, coco de roda, repente, ciranda, xaxado, baião, dentre outros, merecem mais nosso respeito e atenção. Como disse Lula Queiroga, parafraseando Tom Jobim: “Pernambuco não é para amadores” – Mas ao mesmo tempo, se nada é feito em prol de nossa identidade cultural, especialmente frente à globalização e uniformização dos padrões de consumo de cultura, essa complexidade cultural corre o risco de ser simplificada, sem volta, a algo próximo da morte.

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