Até Breve, Tio Zé

Eu queria ficar em silêncio. Talvez realmente fosse melhor, para mim. Mas eu me trairia, seria injusto com meus mais orgânicos sentimentos, que me obrigam a prestar uma singela, porém sincera, homenagem a uma das pessoas mais importantes da minha vida, a quem amarei para sempre. Ele deixou o mundo em 1 de Setembro de 2015, e junto com ele meu coração cheio de saudade.

Eu tive um tio que quando assobiava na esquina, ainda lá longe, enchia meu coração de alegria. Era um assobio especial, destinado a mim, inconfundível. Era tio Zé. Tio Zé sabia de tudo na vida prática. Brincava comigo na infância ao me mostrar um documento fingindo ser um “agente secreto de inteligência da polícia da Aeronática”, resquício de sua primeira profissão como militar. Na minha cabeça ele podia construir e consertar qualquer coisa. Pelo menos na minha mente infantil, uma pessoa que construiu desde sua guitarra até sua casa, além de consertar eletrônicos, bicicletas e muito mais coisas, só podia saber de tudo. Apesar disso, não tinha um curso superior, o qual não fazia a menor falta. De estatura baixa, era cheio de músculos – gostava de exercícios físicos. Conseguia amassar alguns metais duros com a ponta dos dedos, o que eu observava com certa perplexidade. Se por um lado podia intimidar com a largura dos braços, por outro tinha um sorriso que revelava um certo grau de inocência, característica de almas bondosas. Tio Zé me ensinou muitas coisas, a andar de bicicleta, fez meu primeiro papagaio e, dentre tantas coisas, foi meu grande companheiro de aventuras, seja no grande quintal de vovô, no Oratório (Centro Educacional Dom Bosco), no “beco da colônia”, na quadra municipal…

Bem, não é nada disso. Tudo isso é apenas efeito colateral da forte ligação que eu tinha com ele, desde que nasci.

Trabalhador, uma fortaleza. Ajudava a todos. A todos! Deve ter tido que lidar com muitos ingratos, os quais certamente não concordarão comigo nessa qualificação, ao mesmo tempo em que dirão que estou exagerando a falar das suas qualidades. Eu direi que são águas passadas, não importam mais, moverão apenas os próximos moinhos. Eu era criança, não estava conscientemente atento, mas certamente aprendendo com o exemplo. Hoje, em uma espécie de meta-eu, não deixo de me impressionar com a simplicidade com que ele ficava satisfeito em ajudar outros até mesmo nos trabalhos mais pesados, mesmo que tenha levantado sua casa com as próprias mãos, no Lote 92 em Jaboatão, com pouca ou nenhuma ajuda de quem ele costumava ajudar. Certamente ele notava tudo com exatidão, mas continuava a ajudar com uma resiliência impressionante. Eu estava lá, criança, vendo tudo isso, aprendendo não com as palavras que ensinavam o bom proceder teórico que frequentemente saiam da boca de muitos, as quais eram altamente conflitantes com quem eram de fato. Eu aprendia no campo do Bem prático, com o exemplo simples e redentor de tio Zé. Se hoje minha mulher me diz que eu sou um homem bom e trabalhador – embora essa não seja sempre a melhor condição de se viver nesse mundo bélico e dominado pelos preguiçosos – isso certamente se deve, em muito, à influência exemplar de tio Zé.

Tio Zé deixou para mim o maior dos presentes, daqueles que as traças não roem e que te fazem uma pessoa melhor. Era um grande companheiro, especialmente na minha infância. Não me recordo de um único evento desagradável com ele (na verdade não houve), mas me recordo de todos os bons momentos na sua companhia. A vida nos separou, eu tive que “sair” para escrever a minha história e virar homem. Talvez eu tenha um dia a força que ele tinha. Trocaria todo meu intelecto arrogante por essa força, pois não me resta dúvidas de que há mais virtude nisso. Obviamente não era perfeito, mas era para mim, e isso me basta. Lamento não ter dado um último beijo e abraço – na morte repentina não existe essa chance. Lamento não ter falado de sua importância para mim em vida. Lamento profundamente.

Costuma-se falar de pessoas “importantes” nesse mundo, que não causam o menor impacto positivo na vida dos outros. Mas eu tenho que ser justo com as pessoas boas que me inspiram. Esta é a minha contribuição para com a memória de tio Zé, José Carlos Lima de Souza, um grande homem que ajudou a melhorar a vida de muitos. E não, ele não ficou bom depois que faleceu. Foi bom em vida, cumpriu seu papel, realizou seu propósito. Minhas condolências a Neuza, sua esposa, Dinha, sua filha, e todos os seus netos. Imagino a falta que ele lhes faz. Contem comigo no que for preciso, agora e após esse momento triste. Um novo dia virá.

Tio Zé uma dia chorou quando eu caí, essas quedas de criança pequena, que parecem que os anjos salvam. Ele chorou porque não pôde fazer nada para evitar. Hoje sou eu quem chora com a queda fatal de tio Zé. O que me consola é a certeza de que o tempo apenas amplifica a saudade e a felicidade do abraço que darei nele logo após minha queda fatal nesse mundo. Obrigado, tio Zé, por tudo. Perdôe-me a aparente fraqueza das lágrimas, é apenas a carência de uma vida inteira que levarei corajosamente para frente sem nunca mais abraçá-lo. Como o tempo de uma vida não é nada, então, até breve!

tio_ze
Tio Zé com meu filho Miguel (há 3 anos)
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