Primeira cirurgia de Miguel

Não dá para descrever a aflição que senti no dia 22/01/2014 exatamente as 10h00. Neste momento Cida me ligou informando que Miguel, nosso filho, já tinha entrado na sala de cirurgia. Era tarde demais, não tinha como voltar atrás. Não que eu realmente quisesse fazer isso, mas o sentimento de impotência diante do que o filho pode sofrer só deve perder para o eventual sofrimento do filho em si. Me vieram à mente os principais momentos da vida, e, finalmente, aquele em que tomamos a decisão de submetê-lo à cirurgia para remoção da adenoide. Neste ponto, uma grande sensação de culpa pelo mal que lhe pudesse ocorrer foi inevitável.

Pelo menos um mês antes eu comecei a pesquisar sobre o assunto: Adenoidectomia. Para crianças como Miguel, que estão com a glândula adenoide tapando em torno de 95% da passagem de ar pelas narinas, a remoção cirúrgica é o procedimento mais indicado. Com isso vem uma péssima qualidade de vida que surge de uma péssima qualidade do sono. Apneia, estresse, problema no crescimento, infecções recorrentes nas vias aéreas, além de deformações nos ossos da face (incluindo arcada dentária) e do tórax devido à adaptação da respiração pela boca e esforço pulmonar. Só no que diz respeito às infecções, a cirurgia já vale a pena.

Quanto aos riscos da cirurgia, claro que existem. Mas ainda que a adenoidectomia seja a cirurgia infantil mais realizada no mundo, casos de morte são raríssimos. Quando acontece, normalmente sai no noticiário algo do tipo: “Criança morre em cirurgia simples…”. Objetivamente, acontece aproximadamente 1 morte a cada 250000 procedimentos (0,004% dos caso). A complicação mais frequente, a hemorragia no período pós-operatório, ocorre em torno de 3% dos casos. Me confortou o fato de que é muito provável que um cirurgião otorrinolaringologista nunca presencie uma morte em alguma adenoidectomia que realize. Mas se querem saber, na hora da cirurgia as estatísticas favoráveis não contaram muito para ajudar a me tranquilizar! 🙂

Miguel na verdade realizou três procedimentos:

  • Adenoidectomia — retirada das adenoides;
  • Timpanotomia exploratória — incisão nos tímpanos para retirar secreção do ouvido médio e, em alguns casos, colocar tubo de ventilação, que não foi o caso de Miguel (pois não tinha secreção);
  • Turbinectomia (ou turbinoplastia) inferior bilateral — na prática podar os cornetos nasais para deixar passar mais ar.

Dica para os curiosos: ver vídeos no YouTube não ajuda! Especialmente a turbinectomia, que parece um negócio da idade média realizado com tecnologia recente. A adenoidectomia também, que é realizada com cureta, mas fica mais escondido o corte, atrás do palato mole.

Continuando… Um pouco antes das 10h00 ele subiu com Cida para o bloco cirúrgico. Normalmente eu subiria com ele, mas como Cida certamente iria ficar com o coração na mão, quase literalmente, então ela subiu. E eu que fiquei com o coração na mão no apartamento. Então as 9h48 eu liguei para falar com ele de novo. Olha aí ele me acalmando:

Miguel consolando papai antes da cirurgia...
Miguel consolando papai antes da cirurgia…

Como eu disse, as 10h00 ele entrou na sala de cirurgia. Liguei algumas vezes para Cida após esse momento. As 10h48 ela me ligou dizendo que ele saiu da sala cirúrgica para a de observação, estava indo lá ver ele acordar e que não poderia falar no celular lá dentro. Segue a sequência de mensagens que enviei, não lida por ela no Whatsapp:

Mensagens não lidas do Whatsapp.
Mensagens não lidas do Whatsapp de Cida.

Saí do apartamento e fiquei lá andando nos corredores olhando para o celular de 3 em 3 segundos. Quando uma das técnicas de enfermagem, a que fazia a “logística” dos pacientes de/para bloco cirúrgico, me informou que ele estava bem. Os próximos minutos antes d’ele chegar duraram algumas horas, aí ele chegou. Apesar de ter querido me ver, estava visivelmente irritado e sonolento, ainda devido ao efeito de anestesia. A cirurgia foi muito boa, de acordo com a médica dele. De minha parte, extremamente aliviado. Ta aí uma foto dele já no quarto dormindo:

Miguel no quarto
Miguel no quarto dormindo.

E ta aí ele já em casa, ontem mesmo, já desmontando os brinquedos. De volta à vida normal. Só quero saber como eu vou segurar ele essa semana de repouso… eu não, Cida. A parte fácil será a dieta de sorvete, papinha, sopa, gelatina, suco, iogurte… eu já mencionei o sorvete?

Desmontando brinquedo.
Desmontando brinquedos.

Vamos aguardar para ver como será a recuperação dele nessa semana. A parte mais estressante já se foi.

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6 comentários

  1. Gostei muito de ter lido sobre a cirurgia do Miguel. Não os conheço, mas uma unica expressão de suas mensagens “tu me ligasse?”, me deu a certeza que se tratava de pernambucanidade. Espero que seu filho já tenha se recuperado. Desculpe mas talvez vcs possam nos ajudar o meu neto Davi 4 anos fez essa cirurgia dia 01/02/2014 e o nariz de tá muito obstruído, ele vomitou 5 vezes, no hospital, e continua sem querer se alimentar e muito apático.me falem como foi a recuperação do Miguel.

    ps.Já moramos em Recife.

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    • Olá Lindalva. Somos pernambucanos sim! 🙂 Com um certo orgulho disso, como todo verdadeiro pernambucano, embora Miguel seja mineiro.

      Olha, a recuperação dele foi muito boa, sem queixas de dor e o nariz ficou só um pouco entupido até o retorno ao otorrino. Se seu neto fez a turbinectomia, é muito provável que algum efeito de entupimento exista, e a intensidade deve variar de caso para caso, pois os cornetos cauterizados criam um “cascão” que precisa cair. Parte do “cascão” nas narinas pode/deve ser removido no retorno ao otorrino, como aconteceu com Miguel. Ademais, vocês estão lavando bem as narinas dele com soro? A médica nos recomendou esse procedimento.

      Sobre os vômitos, dizem que esse pode ser um dos efeitos da anestesia geral logo após a cirurgia. Se ele também fez a remoção das amígdalas, é provável que ele esteja sentindo dor para engolir, por isso não come bem, mas deve-se confirmar se é mesmo por dor. Neste caso, respeitar bem o período dos analgésicos receitados pelo médico.

      Sobre a apatia, também já ouvi falar que pode ser um efeito (temporário) da anestesia. Mas se você quer saber minha opinião final sobre tudo isso, recomendo que procurem um médico de confiança (o pediatra ou mesmo o otorrino da cirurgia, por exemplo) caso percebam que os efeitos físicos ou psicológicos estejam muito intensos, obviamente em relação a como Davi se comporta de costume.

      Como ele está hoje? Quando ele retorna ao otorrino?

      Um abraço e melhoras para Davi!

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  2. Boa tarde Marcelo como vai ? Me chamo Csrlos, pai de João Miguel de 2 anos e meu filho tem dificuldade com a fala, sono irregular e otites de repetição. O tratamento clínico não vem surtindo efeito é o otorrino ( de nossa confiança) indicou os mesmos procedimentos cirúrgicos de seu Miguel. Poderia por gentileza dizer quais os sintomas e idade â época e se Hj ele tem uma qualidade de vida melhor ? Meu maior receio são com as sequélas principalmente relação à turbinoplastia. Muito obrigado e parabéns pelo
    Filho saudável !!

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    • Olá Carlos. Primeiramente me desculpe a demora em responder. Os problemas que (meu) Miguel tinha eram similares a do seu filho, especialmente as otites de repetição. A qualidade de vida dele hoje é outra, muito superior. As otites sumiram completamente. Antes da cirurgia eu estava realmente inseguro com os riscos de hemorragia, mas após ver as estatísticas (chances muito baixas de complicação) fiquei um pouco mais tranquilo. Após o procedimento tive a certeza que foi a coisa certa a se fazer. Sei que a decisão é difícil, mas vale a pena considerar, sempre com o acompanhamento e aconselhamento de um bom otorrino cirurgião. Espero o melhor para seu filho. Manda notícias. Um abraço.

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