Fim de Feriadão e Indentidade em Pesquisa Científico-Tecnológica

Domingo à noite, disposição íntima “pós-Faustão”, fim de feriadão Tiradentes + Paixão de Cristo + Páscoa, hora de pensar em algo mais próximo do que eu posso chamar de trabalho. Como se eu tivesse passado o feriado sem pensar… Tarefa impossível para alguns de nós, apaixonados por C&T. O feriado foi bastante produtivo: amadureci algumas ideias, fixei alguns interesses de pesquisa (just by thinking!, como diria Nicolelis) e o melhor, brinquei bastante com Miguel Ângelo no clube.

Bom, a parte de “amadureci algumas ideias, fixei alguns interesses de pesquisa” é a ponta do iceberg da falta de identidade em pesquisa científica que tem me perturbado nos últimos dias. Meu orientador de Mestrado, Prof. Fernando Buarque, fez seu Doutorado no Imperial College em Neurociência. Apesar disso, meu trabalho com ele na UPE (Universidade de Pernambuco) tem sido a instanciação de uma nova linha de pesquisa dentro do CIRG-UPE (Computation Intelligence Research Group – UPE): ABSS (Agent-Based Social Simulations / Simulações Sociais Baseadas em Agentes). Apesar de sempre ter me interessado em Neurociências, nunca havia realmente levado a sério a área como uma das minhas linhas de pesquisa.

Pois bem, a parte de “amadureci algumas ideias, fixei alguns interesses de pesquisa” tem a ver exatamente em me assumir como pessoa fortemente interessada em Neurociência. Estou guardando especial interesse em BMIs (Brain-Machine Interfaces / Interfaces Cérebro-Máquina). O culpado maior por tudo isso sou eu mesmo, mas há também culpa do Prof. Miguel Nicolelis (Duke University). O cara provavelmente será o primeiro Nobel brasileiro em Fisiologia / Medicina, além de ser apaixonado pelo Brasil e, o melhor, me fez efetivamente (e não apenas “romanticamente”) encarar o sistema nervoso central como o limiar tecnológico mais importante na história da Computação. A diferença entre o que é “efetivo” e “romântico” faz toda a diferença.

Em última análise, os resultados alcançados pelo grupo de pesquisa de Nicolelis já faziam parte da ficção científica “computeira” (vide Matrix) que todo mundo da área sabe que um dia vai simplesmente acontecer. Com estes resultados de Nicolelis, contudo, nos permitimos fazer análises cada vez mais profundas sobre as “tecnicalidades” do processo de ler pensamentos com aparatos computacionais conhecidos como BMIs e interpretá-los a fim de gerar efeitos mecânicos em dispositivos externos (e.g. uma perna mecatrônica).

Estou lendo o livro do Nicolelis. Não resisti esperar até Junho, quando será lançado no Brasil, então resolvi importar. Não vou aqui explicitar todas as minhas ideias e observações técnicas sobre BMIs. Quero apenas deixar registrado que estamos adentrando em uma nova era da TIC, mesmo da Computação. Se há uma grande expectativa em torno da Computação Quântica e o consequente novo paradigma de programação de computadores, posso afirmar com alguma segurança que, antes da Computação Quântica, virá a Computação Neural, e a respectiva mudança de paradigma não só de programação, mas de modelo de máquina.

Basicamente, o cérebro, mesmo que seja possível provar que ele pode ser representado em uma máquina de Turing (em função de suas unidades orgânicas, os neurônios), trabalha com um modelo bastante alternativo em relação ao modo como programamos máquinas hoje e sempre. Programas tradicionais separam instruções de dados, e todo o fluxo de execução pode ser descrito como uma manipulação simbólica de dados por instruções. O modelo neural mistura dados e instruções… melhor, não codifica explicitamente nenhum deles, e isto em última instância representa um compromisso entre plasticidade computacional e exatidão. Programas neurais não poderão, portanto, ser implementados da forma tradicional. Veja que estamos avançando nesta direção: http://spectrum.ieee.org/robotics/artificial-intelligence/moneta-a-mind-made-from-memristors.

A Computação Neural não estará limitada apenas às máquinas que são arquiteturalmente similares ao cérebro. O próprio cérebro humano deverá participar deste processo. O uso de BMIs tem permitido cada vez mais a leitura e interpretação de potenciais de ativação neurais de um grande conjunto de neurônios, ampliando seus horizontes para comportamentos motores cada vez mais complexos. Deverá ampliar ainda mais seus horizontes quando a escrita no cérebro for mais trivial tecnologicamente. O cérebro poderá ser uma máquina de computação futuramente plugada em uma “neural cloud”.

Normalmente colocamos esses avanços em um futuro muito distante. Quero declarar aqui que isto se realizará em plenitude no médio prazo, e estou estou fortemente inclinado a contribuir com esta realidade, fazer parte deste processo. – Você não?

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