Carreira Acadêmica: Docente ou Pesquisador?

A carreira de docente hoje nas universidades federais e estaduais públicas brasileiras acumulam, basicamente, duas atividades: 1) Ensino; e 2) Pesquisa. A rigor, poderiam seriam três atividades obrigatórias, de acordo com o conceito de que a universidade, enquanto serviço público, se sustenta em três pilares: ensino, pesquisa e extensão. Estes três “pilares” são a base de sustentação da disseminação do conhecimento em uma sociedade. São, portanto, essenciais para seu desenvolvimento humano e econômico.

Pilares Universidade
Os três pilares da Academia

Das três atividades essenciais, a que recebe menos atenção é a extensão universitária. Contudo, não é menos importante. A extensão universitária é, antes de um mecanismo de serviço assistencial para a sociedade que induz aprendizado do aluno voluntário, um meio de humanização dos profissionais em formação, estes mesmos alunos. Estamos a formar profissionais pouco conscientes de seus papéis na sociedade porque, ao longo de sua formação, não passaram por um processo de humanização, de compreensão pragmática de como seu trabalho pode ser útil para o desenvolvimento de sua região, país e mundo. E, claro, desenvolvimento é sobretudo desenvolvimento humano.

Se não necessariamente produtivos em extensão, os professores universitários são praticamente forçados a serem produtivos em pesquisa, além de serem docentes. Sobrecarregam duas funções em uma só. É fato que há excelentes professores que não são bons pesquisadores, bem como excelentes pesquisadores com menos talento para o ensino. Com a atual tendência unilateral de valorização das atividades de pesquisa, refletidas nos meios de avaliação de cursos de graduação, pós-graduação e dos docentes individualmente, os pilares da universidade invariavelmente ficam desequilibrados, ponderados de forma desigual.

O resultado é uma gradual desvalorização do ensino superior e pós-graduado, bem como uma busca pouco louvável, objetivamente se falando, de melhoria dos indicadores de pesquisa pelos docentes. Não vem ao caso aqui falar da “corrida” imatura pela quantidade de artigos publicados ao invés da busca pela excelência na qualidade em pesquisa (esta que se converte em potencial desenvolvimento social). O fato é que o ensino, esse pilar tão importante da disseminação do conhecimento, fica prejudicado. E o pior:  1) nossos ótimos indicadores de produtividade científica não são diretamente convertidos em riqueza, pois a maioria das nossas publicações não são necessariamente produções intelectuais de qualidade; e 2) isso é uma bola de neve, pois os novos profissionais da educação, ciência e tecnologia tenderão a repetir os mesmos erros. Claro, sem falar na extensão, que foi quase totalmente esquecida por quem faz a universidade no Brasil.

A proposta que aqui apresento não é nova. Muito provavelmente outros pesquisadores já a apresentaram, aparentemente sem êxito. O ensino superior no Brasil precisa passar por uma reforma, a começar pelo plano de carreiras dos nossos docentes, as peças principais deste tabuleiro. A solução imediata e ingênua seria apenas incorporar mecanismos de avaliação da produção de conhecimento no país que considerasssem os três pilares da academia. Contudo, essa solução tem uma falha básica, que é a ainda maior sobrecarga de atividades para o docente. Este docente certamente não seria produtivo em nenhuma das direções, o que é ainda menos desejável.

Minha proposta é, além da incorporação da extensão universitária nos mecanismos de avaliação de cursos de graduação e pós-graduação, bem como de docentes, a reforma nas suas carreiras. Hoje temos professores que precisam dedicar N horas-aula ao ensino e o resto para atividades de pesquisa. Ou seja, um cenário onde pesquisadores são obrigados a dedicar parte de seu tempo ao ensino (por causa dos indicadores de produtividade focados apenas em pesquisa, como eu disse). Esta reforma contemplaria um plano de cargos e salários que prevê duas possíveis carreiras na academia: 1) Docente; e 2) Pesquisador. O cargo de Docente teria como foco o ensino, com menor tempo dedicado à pesquisa, enquanto o cargo de pesquisador focaria na pesquisa, com menor dedicação ao ensino. Ambos os cargos estariam alinhados a um plano maior de extensão universitária, no qual todos seriam obrigados a dedicar parte de seu esforço, participando ou gerenciando projetos de extensão, de acordo com o casamento de oportunidades e competências dos profissionais.

Decidi trazer ao blog este assunto porque creio ser este um dilema que todo professor/pesquisador vive logo quando decide seguir carreira acadêmica. Atualmente encontramos cargos de pesquisadores, assim devidamente nomeados, apenas nos institutos de pesquisa brasileiros. Entedemos que, assim como a docência é apenas um nome genérico para designar um conjunto de atividades de ensino, nos variados níveis de escolaridade, a pesquisa também é igualmente complexa, neste caso nos variados tipos de pesquisa (pura, aplicada, tecnológica). A proposta deve ir mais fundo na definição dos papéis das instituições e os devidos mapeamentos para os profissionais de ensino e pesquisa. Estas definições estão ainda bastante confusos no Brasil, e na maior parte do mundo.

E principalmente trouxe esse assunto ao blog porque me identifico. Eu, assim como muitos outros colegas, têm especial motivação e aptidão para a pesquisa (pura, aplicada ou tecnológica). Seguir a carreira de docência na academia hoje significa refletir, contudo, não apenas nas nossas aptidões para um dos pilares do conhecimento, mas de todos, o que dificulta a escolha. Nós que especialmente estamos interessados não apenas em seguir uma carreira egoísta, olhando para o próprio umbigo e evolução pessoal, ou perseguindo uma produção científico-tecnológica infrutífera, mas sim em como podemos ser úteis para a sociedade exercendo nossa profissão, da melhor forma possível, com o máximo de qualidade.

Até lá, e apesar das nossas aptidões e derradeiras escolhas, precisamos aprender a lidar e a tirar o melhor de um sistema improdutivo de geração e gestão do conhecimento, este que se retroalimenta negativamente ao formar profissionais pouco conscientes dos próprios pecados.

– Como podemos começar a mudar o jogo?

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3 comentários

  1. Acho que você já o fez: começando a dar sua opinião, tao clara e objetiva (e, com certeza, com sinceras intenções).

    Este segmento que estará como pilar da sociedade da nova era (sócio-interativa-digital-equilibrada) precisa ser reformulado para que atenda às novas expectativas.

    que suas palavras tenham êxito.

    abraço!

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  2. Na área de humanidades (sou da Literatura), a carreira de pesquisador é praticamente inexistente e nosso sistema universitário está estagnado. Acabei de sair do mestrado em uma Universidade Federal e existe sim, uma plano maléfico para privatizá-las.
    Vejo em outros países que contratam pesquisadores e o doutorado é emprego e não estudo (a Holanda é um belo exemplo disso).
    Universidades privadas pensam no lucro e vendem a educação como mercadoria (a PUC ainda investe nas pesquisas feitas pelos docentes).
    Realmente, precisamos de uma reforma muito grande ou nossas universidades estarão mais deterioradas futuramente.

    Abraços!

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