“Brain Drain”: Fuga de Cérebros do Brasil

Esta semana o Governo brasileiro publicou seu orçamento para 2011. Dos R$ 2,073 trilhões, apenas R$ 8,13 bilhões foram liberados para Ciência e Tecnologia. Para uma mera pessoa física esses valores são tão grandes que fica até difícil fazer a conta, não é verdade?

Não tem problema, eu faço a conta… e o resultado assusta: o investimento em C&T representa apenas 0,39% do orçamento total do país!

O orçamento proposto pelos EEUU para 2011, por exemplo, é de US$ 3,8 trilhões, com destino para C&T de US$ 147,6 bilhões, o que representa 3,9% do orçamento total do país. Outros países, com o Japão e Coréia do Sul, também destinam mais de 3% dos seus orçamentos para C&T. Ou seja, estes países são quase 10 vezes mais ousados (ou diríamos conscientes?) do que nós nos investimentos em C&T. Não estamos nem considerando aí a iniciativa privada, onde somos ainda muito tímidos e imaturos no que diz respeito ao aproveitamento de P&D. Em valores absolutos, a diferença fica mais gritante.

Vejam aqui um resumo do Relatório Unesco sobre Ciência 2010, gerado a cada 5 anos pela Unesco para avaliação da evolução da Ciência no mundo. O resumo foca no Brasil.

Apesar de insuficiente para criar uma revolução na Ciência e Tecnologia (similar a revolução na Educação proposta por Cristovam Buarque) brasileira, o Governo Lula, com a competência do Ministro Sérgio Rezende, conseguiu avanços. Mas para ser chato, eu diria que apesar dos avanços, o investimento é ínfimo. O número de bolsas de iniciação científica e pós-graduação oferecidas pelos órgãos de fomento à pesquisa no país (CNPq, CAPES, FINEP, etc) cresceu significativamente nos últimos anos, bem como seus valores, estabilizando a perene fuga de talentos intelectuais do Brasil para as indústrias, centros de pesquisa e universidades no exterior: o fenômeno conhecido como brain drain. Precisamos, contudo, reverter este quadro, deixar de perder cérebros brasileiros, aproveitá-los bem aqui, e importar com fortes atrativos (financeiros principalmente) cérebros estrangeiros: seria o brain gain.

Este assunto é discutido desde a década de 70 do século XX pelos pesquisadores brasileiros. Conquistas foram alcançadas, mas nossa sociedade precisa se desenvolver e acordar para a realidade do que realmente torna um país humanamente desenvolvido. Nesta mesma década, enquanto pesquisadores brasileiros, dentre eles o próprio Sérgio Rezende (isso é bem retratado em seu mais recente livro Momentos da Ciência e Tecnologia no Brasil), discutiam reformas nas carreiras de docente/pesquisador na universidade para fins de desenvolvimento da ciência, países como a Coréia do Sul já começavam a implementar um programa arrojado de Educação e Ciência para o desenvolvimento da nação. Hoje, ou seja, depois de 40 anos, colhem os frutos, e são a nação mais inovadora do mundo. Se o Brasil começa hoje com o pique todo, colhe os frutos em 2030. Estamos atrasados.

Com a saída de Sérgio Rezende do Ministério da Ciência e Tecnologia em 2011, dado seu histórico de ativista na luta pelo desenvolvimento científico-tecnológico de nosso país, o Brasil perde uma grande oportunidade de continuar a ter no Executivo alguém que vive o que trata (não se trata apenas ser doutor em alguma área do conhecimento), cientista físico que é, e avançar. Apesar da experiência política do futuro Ministro Aloizio Mercadante, e de sua boa vontade, teríamos que ter à frente das decisões em C&T um pesquisador experiente, além de um gestor experiente.

Charge Ciência, Tecnologia e Educação 2011

A timidez do Governo brasileiro em investir mais recursos em C&T, bem como o retrocesso em termos de liderança frente ao MCT, nos remete às questões pelas quais pesquisadores brasileiros, mentes criativas, são atraídos a trabalhar no exterior. Melhores salários, melhores condições de trabalho, mais reconhecimento científico, enfim, possibilidade de fazer a diferença.

É por esses motivos e outros que pesquisadores como Miguel Nicolelis (a propósito, certamente o nome mais cotado para o primeiro Nobel brasileiro) saíram do país em busca de melhores condições de trabalho. No país, não veriam seu trabalho acontecer.

Esperamos que, apesar do brain drain, os nossos outros pesquisadores que trabalham nos países desenvolvidos cientificamente tenham o mesmo amor pela nação que o próprio Miguel Nicolelis tem, e façam o que ele fez: retornar ao Brasil com projetos inovadores que levem ao nosso efetivo desenvolvimento humano.

Apesar das condições ruins, Nicolelis voltou com excelentes projetos, mas para que isso seja massivo precisamos criar um cenário mais animador, pelo menos mais animador que os 0,39% do orçamento em C&T. E, além de tudo, criar condições não apenas para que nossos “estrangeiros” retornem, mas para que nossos brasileiros e brasileiras sequer pensem em fugir.

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Um comentário

  1. Uma das principais estratégias de Mercadante está sendo o que eu mencionei como “brain gain”: criar oportunidades para que os mais de 3.000 pesquisadores brasileiros no EEUU e outros países retornem e contribuam com nosso desenvolvimento humano.

    Gostei da iniciativa dele de convidar Nicolelis para criar uma comissão para o avanço da Ciência no Brasil. Mostrou maturidade, especialmente porque Nicolelis criticou sua nomeação para ministro de C&T. No que diz respeito a políticas de TI, Mercadante nomeou Virgílio Almeida, professor titular da UFMG. Uma outra excelente escolha!

    Espero que ele continue selecionando pessoas competentes, como tem feito até agora, para encabeçar iniciativas importantes em C&T no Brasil.

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