Sobre dependência tecnológica e Google Energy

Começou com o PowerMeter. A ideia é usar este software da Google para monitorar e gerenciar o consumo de energia de sua residência. Para tanto, basta possuir um dispositivo habilitado a fornecer insumos para o software, que é acessado a partir da homepage de busca do usuário, o iGoogle. Nestes tempos de crises energéticas, essa “ideia verde”  é bastante atraente… se não fosse tão estratégica! (vejam mais sobre as atividades filantrópicas da Google no google.org)

Como dizem em tom apocalíptico: “A Google vai dominar o mundo!”

Não concordo. Mas também não discordo da opinião de que todas as empresas privadas possuem fins egoístas (no Brasil duvidamos até do altruísmo do setor público, não raro com razão):  a dominação é uma consequência direta de sua ambição.  Não fosse assim, a Teoria dos Jogos não funcionaria de jeito nenhum para ecossistemas empresarias.  No entanto, não há novidade aí.

Criamos dependência de um número sem fim de tecnologias que consumimos. Há uma frase verdadeira que me recordo, posta nas camisas distribuídas em algum evento de engenharia na minha época de graduação, que era a seguinte: “Engenharia: olhe ao seu redor” – de fato, para onde olhamos há tecnologia. Só para explicitar, dependência tecnológica significa que alguns processos importantes de nossa vida – e no pior dos casos a própria vida – funciona sobre uma infraestrutura artificial, isto é, criada pelo homem. Ruim? Não, culturalmente essencial. Arriscado? Bastante… Mas esse caminho já tomamos há muito tempo, e não tem mais volta.

Todos os dias surgem invenções sobre invenções, e hoje vivemos em um nível de abstração de realidade muito elevado, embora poucos se dêem conta realmente, isto é, sintam em suas fibras mais íntimas, de quão artificiais se tornaram nossas vidas. Não há nostalgia aí, de jeito nenhum. Não sou velho o suficiente para dizer algo do tipo: “Tempos bons eram aqueles dos jogos de baralho com cartas de verdade!” – mas basta um olhar superficial sobre a história para detectar esse padrão de comportamento.


Desde há muito tempo dependemos, e hoje em última análise mais do que qualquer outra coisa, de um bem de consumo abstrato chamado informação. Estamos inseridos já há algum tempo em uma humanidade memética. Se os genes já foram essenciais e hoje são importantes, o que movimenta as pessoas hoje são os memes, muitas vezes independente de contrapartidas físicas que justifiquem seu propósito. Informações relevantes sobre o mercado, por exemplo, transformam pobres em ricos e ricos em pobres “da noite para o dia”, sem mudança econômica real em nenhum ponto da cadeia produtiva. Informação é, portanto, poder. (vejam AQUI uma notícia sobre fato negativo recente que exemplifica o poder da informação)

As discussões mais quentes (literalmente) destes próximos anos vão girar em torno de aquecimento global e crise energética associada. Que a Google já dominou o mercado da informação ninguém duvida. Imagine a seguinte  projeção de futuro, diga-se de passagem com grande probabilidade de ocorrência:

  1. As pessoas vão se importar com a fonte da energia elétrica que consomem;
  2. As pessoas vão querer usufruir de serviços personalizados ligados à gestão de consumo de energia,de acordo com seus perfis;
  3. A maioria das pessoas de classe baixa vão acessar informação no futuro por meio de tecnologia BPL (broadband over power lines), banda larga sobre redes elétricas.

Não me surpreende, portanto, as intenções da Google em “colocar o pé” dentro do mercado de energia, vislumbres do ainda marginal Google PowerMeter. Mas tudo indica que o “pé” que a empresa colocou no mercado foi logo o direito. A comissão responsável pela regulação energética nos EUA aprovou o negócio da subsidiária Google Energy, tornando a Google a primeira empresa de TI capaz de distribuir (comprar e vender) energia. Por enquanto, as intenções declaradas da empresa são somente em relação ao fornecimento de energia e otimização energética de seus data centers. Mas, cá entre nós, duvidamos que venham por aí planos para criação de usinas (de fato “Powered by Google”) e, obviamente, exploração das redes de distribuição de energia elétrica para provisão de serviços de informação e também serviços ligados à gestão energética?

Serviços de alta qualidade e de baixo custo a Google já provou poder oferecer aos seus usuários. Fica porém a preocupação das tendências de centralização desses serviços nas mais variadas esferas de atuação e nossa dependência em apenas uma infraestrutura tecnológica, cenário que não cheira bem. Se há impérios hoje, eles são construídos pelas grandes empresas e totalmente baseados na dependência tecnológica. E é claro que esta é uma forma de dominação; e das piores: aquelas que nos fazem cair no precipício rindo.

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